O paradoxo da coesão: a reunião ministerial de Nova Délhi e os limites da concertação no BRICS ampliado
- Paula Lazzari

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A reunião ministerial do BRICS realizada em Nova Délhi entre 14 e 15 de maio de 2026 produziu um resultado incomum na trajetória do grupo. Os chanceleres não conseguiram emitir uma declaração conjunta, publicando apenas uma Chair’s Statement que registrava a existência de opiniões divergentes entre alguns membros sobre a situação no Oriente Médio e na Ásia Ocidental. A Índia, na presidência do BRICS, divulgou um documento de 63 parágrafos que registrava consensos em temas econômicos e de governança global, ao mesmo tempo em que reconhecia a ausência de acordo sobre questões de segurança mais sensíveis, com dois parágrafos acompanhados de ressalvas formais de membros não identificados.
O episódio expressa um desafio associado ao processo recente de expansão do BRICS. A incorporação de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã como novos membros admitidos entre 2024 e 2025 ampliou significativamente o peso demográfico e econômico do fórum. Esse alargamento, contudo, também aumentou a diversidade de interesses representados em seu interior e tornou mais visíveis diferenças regionais que nem sempre apareciam de forma direta nas reuniões do BRICS. Não se trata de afirmar que o arranjo era homogêneo antes da expansão: China e Índia, por exemplo, mantêm uma rivalidade estratégica de longa data, e as posições de Brasil e Rússia sobre a ordem internacional nem sempre coincidiram. O ponto é que a nova composição parece ter tornado mais difícil administrar essa heterogeneidade dentro do formato consensual que orienta o funcionamento do mecanismo.
A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel ao longo de 2026 conferiu maior relevância prática a esse desafio. Concebida como etapa preparatória para a Cúpula de Líderes de setembro, a reunião de Nova Délhi colocou à prova a capacidade do BRICS ampliado de acomodar diferenças políticas em temas de segurança internacional. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, defendeu uma condenação explícita dos ataques americanos e israelenses e acusou os Emirados Árabes Unidos de envolvimento direto nas operações militares contra o Irã. A delegação emiradense rejeitou a acusação e, por sua vez, atribuiu ao Irã milhares de ataques contra seu território desde o início da guerra. Esse impasse dificultou a construção de uma formulação comum.
A análise das posições nacionais revela um padrão de fragmentação que o documento final tornou visível. Do ponto de vista analítico, é possível identificar três padrões predominantes de posicionamento. O primeiro, de orientação centrada na soberania, incluiu Rússia, China, Brasil e África do Sul, que enfatizaram a violação da soberania iraniana. O segundo, de orientação regional-estratégica, agrupou Índia, Egito e Etiópia, cuja prioridade parece ter sido a segurança energética e a estabilidade das rotas marítimas, levando-os a apoiar medidas contra o Irã na votação da Resolução 2817 do Conselho de Segurança da ONU em março de 2026. O terceiro foi composto pelos Estados mais diretamente implicados na crise, Irã e Emirados Árabes Unidos, cujas posições se mostraram particularmente difíceis de conciliar. A China, embora próxima do primeiro padrão, enviou seu embaixador na Índia como representante, e não seu chanceler, em um momento em que a visita do presidente Donald Trump a Pequim ocupava lugar central em sua agenda diplomática.
Um contraste com episódios anteriores ajuda a dimensionar o problema. Após os confrontos fronteiriços entre China e Índia em Galwan, em junho de 2020, o BRICS continuou emitindo declarações conjuntas nas reuniões ministeriais e de cúpula dos anos seguintes. Em 2020, 2021 e 2022, o grupo produziu documentos consensuais que não registraram diretamente o conflito bilateral. A comparação não sugere equivalência entre os dois episódios: os contextos são distintos, assim como a escala das implicações regionais. O que o contraste permite observar é a diferença entre formas de administração do desacordo.
Em 2020, a omissão do tema nos documentos parece ter sido suficiente para preservar a linguagem consensual. Em 2026, a guerra no Oriente Médio produziu um nível de pressão que tornou essa omissão menos viável. O resultado de Nova Délhi não significou o esvaziamento da agenda substantiva do BRICS. Os ministros avançaram em temas como reforma do Conselho de Segurança da ONU, crítica a sanções unilaterais, combate ao terrorismo, cooperação em inteligência artificial e segurança energética. O documento final reafirmou o compromisso com a solução de dois Estados para a Palestina e com a reforma das instituições financeiras
internacionais.
A falta de consenso concentrou-se principalmente na guerra em curso. Esse padrão aproxima-se da lógica de convergência seletiva identificada na literatura recente sobre o BRICS: o grupo desenvolve coesão em áreas nas quais os interesses dos membros são convergentes ou complementares, mas encontra limites quando temas de segurança envolvem interesses diretos e conflitantes de integrantes do próprio fórum. O Índice de Convergência do BRICS indica que a coesão do grupo aumentou entre 2009 e 2021 em temas econômicos, enquanto a incorporação de questões de segurança após 2015 ampliou a exposição a desacordos entre os membros.
Esse diagnóstico dialoga com a literatura sobre instituições informais. Estudos sobre organizações intergovernamentais informais indicam que formatos pouco institucionalizados podem facilitar a acomodação de interesses divergentes entre potências emergentes, justamente por sua flexibilidade e baixo custo institucional. A contrapartida dessa flexibilidade é a ausência de mecanismos formais de resolução de disputas entre membros. Avaliações sobre a trajetória do BRICS indicam que o princípio de avançar apenas em temas aceitáveis a todos os participantes contribuiu para a resiliência do grupo, embora tenha limitado o aprofundamento da cooperação em áreas mais sensíveis. A reunião de Nova Délhi sugere que essa relação entre amplitude e profundidade se tornou mais evidente após a expansão.
O caráter preparatório do encontro para a Cúpula de Líderes de setembro de 2026 confere ao episódio um significado adicional. Reuniões ministeriais no BRICS costumam contribuir para a consolidação da agenda e para a elaboração dos documentos que orientam a cúpula. A dificuldade em produzir uma declaração conjunta em nível ministerial desloca para os chefes de Estado parte da tarefa de administrar diferenças que permaneceram sem acomodação satisfatória entre os chanceleres. A Cúpula de setembro poderá indicar se o formato adotado em maio permanecerá como solução excepcional ou se os líderes conseguirão reconstruir alguma forma de linguagem compartilhada.
A reunião de Nova Délhi pode ser lida como um ponto de inflexão na forma como o BRICS lida com os efeitos institucionais de sua expansão. A ampliação reforçou a legitimidade representativa do grupo, mas também acentuou os custos políticos da heterogeneidade entre seus membros. O episódio não invalida o BRICS como plataforma de cooperação entre países do Sul Global, mas sugere que sua capacidade de construir convergência em temas de segurança internacional se tornou mais limitada. Nesse contexto, a Cúpula de setembro será um teste relevante da disposição dos líderes de preservar mecanismos mínimos de coordenação política diante de um arranjo mais amplo, diverso e politicamente sensível.
Referências
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