top of page

O paradoxo da coesão: a reunião ministerial de Nova Délhi e os limites da concertação no BRICS ampliado

Nota: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição deste site.


Reunião dos ministros das Relações Exteriores do BRICS realizada em Nova Délhi, Índia, em maio de 2026. Delegações dos países membros estão sentadas ao redor de uma mesa de conferência sob o painel oficial do evento “BRICS Foreign Ministers’ Meeting”, em preparação para a cúpula do bloco.
Reunião dos Ministros das Relações Exteriores do BRICS em Nova Délhi, maio de 2026. Fonte: Ministry of External Affairs of India (2026).

A reunião ministerial do BRICS realizada em Nova Délhi entre 14 e 15 de maio de 2026 produziu um resultado incomum na trajetória do grupo. Os chanceleres não conseguiram emitir uma declaração conjunta, publicando apenas uma Chair’s Statement que registrava a existência de opiniões divergentes entre alguns membros sobre a situação no Oriente Médio e na Ásia Ocidental. A Índia, na presidência do BRICS, divulgou um documento de 63 parágrafos que registrava consensos em temas econômicos e de governança global, ao mesmo tempo em que reconhecia a ausência de acordo sobre questões de segurança mais sensíveis, com dois parágrafos acompanhados de ressalvas formais de membros não identificados.


O episódio expressa um desafio associado ao processo recente de expansão do BRICS. A incorporação de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã como novos membros admitidos entre 2024 e 2025 ampliou significativamente o peso demográfico e econômico do fórum. Esse alargamento, contudo, também aumentou a diversidade de interesses representados em seu interior e tornou mais visíveis diferenças regionais que nem sempre apareciam de forma direta nas reuniões do BRICS. Não se trata de afirmar que o arranjo era homogêneo antes da expansão: China e Índia, por exemplo, mantêm uma rivalidade estratégica de longa data, e as posições de Brasil e Rússia sobre a ordem internacional nem sempre coincidiram. O ponto é que a nova composição parece ter tornado mais difícil administrar essa heterogeneidade dentro do formato consensual que orienta o funcionamento do mecanismo.


A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel ao longo de 2026 conferiu maior relevância prática a esse desafio. Concebida como etapa preparatória para a Cúpula de Líderes de setembro, a reunião de Nova Délhi colocou à prova a capacidade do BRICS ampliado de acomodar diferenças políticas em temas de segurança internacional. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, defendeu uma condenação explícita dos ataques americanos e israelenses e acusou os Emirados Árabes Unidos de envolvimento direto nas operações militares contra o Irã. A delegação emiradense rejeitou a acusação e, por sua vez, atribuiu ao Irã milhares de ataques contra seu território desde o início da guerra. Esse impasse dificultou a construção de uma formulação comum.


A análise das posições nacionais revela um padrão de fragmentação que o documento final tornou visível. Do ponto de vista analítico, é possível identificar três padrões predominantes de posicionamento. O primeiro, de orientação centrada na soberania, incluiu Rússia, China, Brasil e África do Sul, que enfatizaram a violação da soberania iraniana. O segundo, de orientação regional-estratégica, agrupou Índia, Egito e Etiópia, cuja prioridade parece ter sido a segurança energética e a estabilidade das rotas marítimas, levando-os a apoiar medidas contra o Irã na votação da Resolução 2817 do Conselho de Segurança da ONU em março de 2026. O terceiro foi composto pelos Estados mais diretamente implicados na crise, Irã e Emirados Árabes Unidos, cujas posições se mostraram particularmente difíceis de conciliar. A China, embora próxima do primeiro padrão, enviou seu embaixador na Índia como representante, e não seu chanceler, em um momento em que a visita do presidente Donald Trump a Pequim ocupava lugar central em sua agenda diplomática.


Um contraste com episódios anteriores ajuda a dimensionar o problema. Após os confrontos fronteiriços entre China e Índia em Galwan, em junho de 2020, o BRICS continuou emitindo declarações conjuntas nas reuniões ministeriais e de cúpula dos anos seguintes. Em 2020, 2021 e 2022, o grupo produziu documentos consensuais que não registraram diretamente o conflito bilateral. A comparação não sugere equivalência entre os dois episódios: os contextos são distintos, assim como a escala das implicações regionais. O que o contraste permite observar é a diferença entre formas de administração do desacordo.


Em 2020, a omissão do tema nos documentos parece ter sido suficiente para preservar a linguagem consensual. Em 2026, a guerra no Oriente Médio produziu um nível de pressão que tornou essa omissão menos viável. O resultado de Nova Délhi não significou o esvaziamento da agenda substantiva do BRICS. Os ministros avançaram em temas como reforma do Conselho de Segurança da ONU, crítica a sanções unilaterais, combate ao terrorismo, cooperação em inteligência artificial e segurança energética. O documento final reafirmou o compromisso com a solução de dois Estados para a Palestina e com a reforma das instituições financeiras

internacionais.


A falta de consenso concentrou-se principalmente na guerra em curso. Esse padrão aproxima-se da lógica de convergência seletiva identificada na literatura recente sobre o BRICS: o grupo desenvolve coesão em áreas nas quais os interesses dos membros são convergentes ou complementares, mas encontra limites quando temas de segurança envolvem interesses diretos e conflitantes de integrantes do próprio fórum. O Índice de Convergência do BRICS indica que a coesão do grupo aumentou entre 2009 e 2021 em temas econômicos, enquanto a incorporação de questões de segurança após 2015 ampliou a exposição a desacordos entre os membros.


Esse diagnóstico dialoga com a literatura sobre instituições informais. Estudos sobre organizações intergovernamentais informais indicam que formatos pouco institucionalizados podem facilitar a acomodação de interesses divergentes entre potências emergentes, justamente por sua flexibilidade e baixo custo institucional. A contrapartida dessa flexibilidade é a ausência de mecanismos formais de resolução de disputas entre membros. Avaliações sobre a trajetória do BRICS indicam que o princípio de avançar apenas em temas aceitáveis a todos os participantes contribuiu para a resiliência do grupo, embora tenha limitado o aprofundamento da cooperação em áreas mais sensíveis. A reunião de Nova Délhi sugere que essa relação entre amplitude e profundidade se tornou mais evidente após a expansão.


O caráter preparatório do encontro para a Cúpula de Líderes de setembro de 2026 confere ao episódio um significado adicional. Reuniões ministeriais no BRICS costumam contribuir para a consolidação da agenda e para a elaboração dos documentos que orientam a cúpula. A dificuldade em produzir uma declaração conjunta em nível ministerial desloca para os chefes de Estado parte da tarefa de administrar diferenças que permaneceram sem acomodação satisfatória entre os chanceleres. A Cúpula de setembro poderá indicar se o formato adotado em maio permanecerá como solução excepcional ou se os líderes conseguirão reconstruir alguma forma de linguagem compartilhada.


A reunião de Nova Délhi pode ser lida como um ponto de inflexão na forma como o BRICS lida com os efeitos institucionais de sua expansão. A ampliação reforçou a legitimidade representativa do grupo, mas também acentuou os custos políticos da heterogeneidade entre seus membros. O episódio não invalida o BRICS como plataforma de cooperação entre países do Sul Global, mas sugere que sua capacidade de construir convergência em temas de segurança internacional se tornou mais limitada. Nesse contexto, a Cúpula de setembro será um teste relevante da disposição dos líderes de preservar mecanismos mínimos de coordenação política diante de um arranjo mais amplo, diverso e politicamente sensível.


Referências


[1] Ministry of External Affairs, India. Chair’s Statement and Outcome Document at BRICS Foreign Ministers’ Meeting, 15 maio 2026. Disponível em: https://www.mea.gov.in/bilateral-documents.htm?dtl%2F41144=.


[2] Lee, B. T. F.; Sims, J. P. Legitimacy Through Diversity: China’s Leadership in the BRICS+ Expansion for Global Balance. Fudan Journal of the Humanities and Social Sciences, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s40647-024-00411-6


[3] Sen, S. R. India Fails to Bridge Divide Over Iran War at BRICS Summit. Bloomberg, 15 maio 2026. Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2026-05-15/india-fails-to-bridge-divide-over-iran-war-at-brics-summit.


[4] Toloraya, G. Military Stress Test: The War on Iran and BRICS Institutional Reform. Valdai Club, 2026. Disponível em: https://valdaiclub.com/a/highlights/military-stress-test-the-war-on-iran-and-brics/.


[5] The Wire. Iran-UAE Deadlock Precludes Joint Statement at BRICS Foreign Ministers’ Meeting. 2026. Disponível em: https://m.thewire.in/article/diplomacy/iranuae-deadlock-precludes-joint-statement-at-brics-foreign-ministers-meeting.


[6] Mohan, C. R. India’s BRICS Challenge: Managing a Divided Coalition. ISAS Briefs, National University of Singapore, 20 maio 2026. Disponível em: https://www.isas.nus.edu.sg/papers/indias-brics-challenge-managing-a-divided-coalition/.


[7] Observer Research Foundation. BRICS in a Fractured Order: What the Foreign Ministers’ Meeting Revealed. 20 maio 2026. Disponível em:https://www.orfonline.org/expert-speak/brics-in-a-fractured-order-what-the-foreign-ministers-meeting-revealed.


[8] BRICS India 2026. Site oficial da presidência indiana. Disponível em: https://www.brics2026.gov.in/.


[9] Papa, M.; Han, Z.; O’Donnell, F. The dynamics of informal institutions and counter-hegemony: introducing a BRICS Convergence Index. European Journal of International Relations, v. 29, n. 4, p. 949-975, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1177/13540661231183352.


[10] Vabulas, F.; Snidal, D. Informal IGOs as Mediators of Power Shifts. Global Policy, v. 11, supl. 3, p. 40-51, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1111/1758-5899.12869.


[11] Kirton, J.; Larionova, M. The First Fifteen Years of the BRICS. International Organisations Research Journal, v. 17, n. 2, p. 11-38, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.17323/1996-7845-2022-02-01.

Comentários


RI Talks Todos os direitos reservados © 2026

  • Youtube
  • Instagram
  • LinkedIn
  • TikTok
logo
bottom of page