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A Direita está voltando à Colômbia? Entenda o cenário político

Nota: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição deste site.


“Montagem com os presidenciáveis colombianos Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella durante a eleição presidencial da Colômbia em 2026, representando a polarização entre esquerda e direita no segundo turno.”
Presidenciáveis Ivan Cepeda e Abelardo de la Espriella. (Imagem gerada por IA)

A eleição presidencial de 2026 na Colômbia se consolidou como uma das disputas mais polarizadas e tensas da história recente do país. O primeiro turno revelou uma sociedade profundamente dividida entre a continuidade do projeto progressista iniciado pelo presidente Gustavo Petro e uma guinada à direita representada pelo advogado e empresário Abelardo de la Espriella. O resultado também abriu uma crise política após Petro questionar publicamente a legitimidade da apuração preliminar.


Com mais de 99% das urnas contabilizadas, De la Espriella terminou o primeiro turno na liderança, contrariando grande parte das pesquisas eleitorais, que apontavam vantagem do governista Iván Cepeda. O candidato da direita avançou ao segundo turno ao lado de Cepeda, enquanto a conservadora Paloma Valencia ficou em terceiro lugar. Nenhum dos candidatos alcançou os 50% necessários para vencer no primeiro turno, levando a disputa decisiva para 21 de junho.


Painel de resultados das eleições presidenciais da Colômbia mostrando mapa por departamentos e desempenho dos candidatos. Abelardo De La Espriella lidera com 43,7% dos votos, seguido por Iván Cepeda com 40,9% e Paloma Valencia com 6,9%.
Abelardo De La Espriella terminou o primeiro turno na liderança, com vantagem estreita sobre Iván Cepeda. (Imagem: La Silla Vacía)

Poucas horas após a divulgação dos resultados, Petro publicou mensagens afirmando que não reconhece a contagem preliminar. Segundo o presidente colombiano, o sistema eleitoral teria sofrido alterações suspeitas nos algoritmos de apuração durante a última semana antes da votação. Petro alegou que cerca de 800 mil registros eleitorais teriam sido adicionados ao sistema sem constarem no censo oficial e afirmou que a empresa privada responsável pela contagem teria modificado o software diversas vezes. Para o presidente, as irregularidades levantam dúvidas sobre a legitimidade do resultado. Até o momento, no entanto, não foram apresentadas provas públicas conclusivas que confirmem as acusações, e o Conselho Nacional Eleitoral mantém a validade da apuração. A eleição contou com uma das maiores missões de observação eleitoral já registradas no país, com milhares de auditores e observadores nacionais e internacionais acompanhando o processo.


Publicação do presidente colombiano Gustavo Petro no X questionando os resultados preliminares do primeiro turno das eleições presidenciais da Colômbia em 2026 e alegando irregularidades na contagem de votos.
Presidente Gustavo Petro alega possíveis irregularidades no sistema de apuração eleitoral. (Imagem: post no perfil oficial de Gustavo Petro no X)

A disputa ocorre em um contexto extremamente delicado para a Colômbia. O governo Petro, primeiro governo de esquerda da história do país, promoveu mudanças importantes na política social e externa colombiana. Houve aumento expressivo do salário mínimo, ampliação de programas sociais, fortalecimento da integração latino-americana e avanço de reformas trabalhistas e agrárias. Petro também buscou reposicionar a Colômbia regionalmente, aproximando-se de governos como os do Brasil e do México e adotando uma postura mais independente em relação aos Estados Unidos.


Ao mesmo tempo, o governo enfrentou dificuldades econômicas e institucionais. O aumento dos gastos sociais ampliou o déficit fiscal e parte das reformas foi bloqueada por um Congresso fragmentado. Porém, o principal desgaste político veio da segurança pública. Mesmo após o acordo de paz firmado em 2016 entre o Estado colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupos dissidentes continuam atuando em várias regiões do país, especialmente ligados ao narcotráfico, mineração ilegal e controle territorial. O avanço da violência, atentados políticos e confrontos armados aumentaram a sensação de insegurança entre os eleitores, transformando a criminalidade no principal tema da campanha.


É justamente nesse cenário que Abelardo de la Espriella cresceu politicamente. Advogado milionário, empresário e figura midiática, ele nunca ocupou cargo público, mas construiu uma imagem de outsider antissistema. Durante anos, atuou como advogado de figuras controversas, incluindo narcotraficantes, paramilitares e celebridades colombianas. Admirador declarado de Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele, De la Espriella baseou sua campanha em um discurso de combate radical ao crime e forte rejeição à esquerda.


Suas propostas incluem uma ofensiva militar contra organizações criminosas, construção de megaprisões, endurecimento penal e encerramento das negociações de paz com grupos armados. O candidato chegou a declarar que “bandido que não se submeter será eliminado”, frase que sintetiza sua defesa de uma política de segurança extremamente agressiva. Ele também promete reduzir o tamanho do Estado em cerca de 40%, ampliar a abertura econômica e promover o que chama de “contrarrevolução cultural” contra pautas associadas à esquerda. Ao longo da campanha, acumulou declarações consideradas machistas, homofóbicas e violentas, mas isso não impediu seu crescimento eleitoral.


Do outro lado, Iván Cepeda representa a continuidade do projeto político de Petro. Senador de esquerda e participante importante das negociações de paz com as FARC, Cepeda defende aprofundar as reformas sociais do atual governo e manter a política de “Paz Total”, baseada no diálogo e em negociações com grupos armados. Para ele, a violência colombiana não pode ser resolvida exclusivamente pela repressão militar, mas exige soluções sociais, presença do Estado e redução das desigualdades regionais.


Cepeda também propõe fortalecer direitos trabalhistas, ampliar programas sociais e manter a integração regional latino-americana como eixo da política externa colombiana. Um dos pontos mais controversos de sua campanha é a defesa de uma possível Assembleia Constituinte caso reformas estruturais sejam bloqueadas pelo Congresso. Críticos afirmam que a proposta pode gerar tensões institucionais e abrir espaço para concentração de poder, enquanto aliados argumentam que seria uma forma legítima de superar o bloqueio histórico das elites políticas tradicionais.


O segundo turno coloca frente a frente dois projetos completamente distintos de país. De um lado, a continuidade da experiência progressista iniciada por Petro. Do outro, uma proposta de ruptura marcada por discurso de ordem e conservadorismo político e cultural. A votação de Paloma Valencia e dos setores conservadores tradicionais deve se tornar decisiva para o segundo turno. Ao mesmo tempo, a contestação feita por Petro ao sistema de apuração aumenta a tensão institucional em um país que já convive historicamente com violência política, polarização ideológica e fragilidade na confiança das instituições democráticas.


Referências


CRISTINA, Sandra. De la Espriella ganó hasta en Venezuela: así votaron los colombianos en el exterior en la primera vuelta presidencial | El Colombiano. El Colombiano. Disponível em: <https://www.elcolombiano.com/internacional/resultados-elecciones-colombianos-exterior-primera-vuelta-2026-DF37236577>.


CUETO, José Carlos . Quem é Abelardo de la Espriella, candidato de direita inspirado em Bukele e Milei que liderou o 1o turno na Colômbia - BBC News Brasil. BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4g71j8lmexo>.


EL COLOMBIANO. Las elecciones del 31 de mayo tendrán la mayor observación electoral registrada en Colombia | El Colombiano. El Colombiano. Disponível em: <https://www.elcolombiano.com/informes-comerciales/las-marcas-hablan/las-elecciones-del-31-de-mayo-tendran-la-mayor-observacion-electoral-registrada-en-colombia-NH37127390>.


LEÓN, Juanita. Colombia va a una segunda vuelta entre dos proyectos excluyentes. La Silla Vacía. Disponível em: <https://www.lasillavacia.com/silla-nacional/colombia-va-a-una-segunda-vuelta-entre-dos-proyectos-excluyentes/>.


RANGEL, Laura Sanabria. Luego de votar Petro insistió con engaños en que el sistema electoral es opaco. La Silla Vacía. Disponível em: <https://www.lasillavacia.com/detector-de-mentiras/enganoso/luego-de-votar-petro-insistio-con-enganos-en-que-el-sistema-electoral-es-opaco/>.

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