Quando a tecnologia redefine a guerra: da computação da Segunda Guerra à Inteligência Artificial militar
- Paula Lazzari

- 18 de mar.
- 5 min de leitura
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A recente escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã ocorre em um momento em que a relação entre inovação tecnológica e conflito armado volta ao centro da política internacional. Conflitos contemporâneos têm incorporado drones de baixo custo, sistemas autônomos e ferramentas avançadas de análise de dados em operações militares. Esses desenvolvimentos refletem um padrão histórico mais amplo: guerras frequentemente aceleram a inovação tecnológica, e essas inovações, por sua vez, transformam a forma como os conflitos são conduzidos.¹
Esse processo não se limita à simples ideia de que a guerra “estimula” o progresso tecnológico. Conflitos armados concentram recursos, reorganizam prioridades científicas e reduzem restrições institucionais à experimentação. Tecnologias desenvolvidas nesse contexto raramente permanecem confinadas ao domínio militar. Elas tendem a se difundir para a economia e para as infraestruturas civis, retornando posteriormente ao campo estratégico em formas transformadas. A interação entre guerra e inovação tecnológica constitui, assim, um dos motores recorrentes da transformação do poder no sistema internacional.²
A origem da computação moderna ilustra esse processo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de processar rapidamente grandes volumes de informação criptográfica levou ao desenvolvimento do Colossus em Bletchley Park, utilizado para decifrar comunicações alemãs codificadas pelo sistema Lorenz. O Colossus é frequentemente descrito como um dos primeiros computadores eletrônicos digitais programáveis operacionais.³ Poucos anos depois, nos Estados Unidos, o ENIAC foi desenvolvido para o U.S. Army Ballistic Research Laboratory com o objetivo de calcular tabelas balísticas para artilharia.⁴ Esses sistemas foram concebidos para resolver problemas militares específicos, mas ajudaram a estabelecer as bases técnicas da computação contemporânea.

A Guerra Fria aprofundou essa relação entre tecnologia e segurança nacional ao institucionalizar o financiamento estatal para pesquisa estratégica. A criação da Advanced Research Projects Agency (ARPA) nos Estados Unidos consolidou um modelo de cooperação entre universidades, indústria e governo voltado para inovação tecnológica de interesse estratégico. Um dos resultados mais conhecidos desse processo foi a ARPANET, rede experimental financiada pelo Departamento de Defesa cuja primeira transmissão de dados ocorreu em 1969 entre a University of California, Los Angeles, e o Stanford Research Institute.⁵ De maneira semelhante, o Global Positioning System (GPS) foi desenvolvido pelo Departamento de Defesa norte-americano a partir da década de 1970 para navegação militar, tornando-se posteriormente uma infraestrutura essencial para transporte, logística e comunicação digital.⁶
Durante grande parte do século XX, o fluxo de difusão tecnológica seguiu uma direção relativamente clara: tecnologias desenvolvidas em programas militares eram gradualmente transferidas para aplicações civis. Nas últimas décadas, porém, essa dinâmica tornou-se mais complexa. O setor privado passou a liderar áreas decisivas da inovação tecnológica, particularmente em software, inteligência artificial, computação em nuvem e análise de grandes volumes de dados. Como resultado, tecnologias inicialmente desenvolvidas para aplicações comerciais passaram a ser incorporadas com rapidez crescente em operações militares.
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconheceu explicitamente essa mudança ao lançar, em 2017, o Project Maven, uma iniciativa voltada para o uso de algoritmos de visão computacional capazes de analisar grandes volumes de imagens e vídeos coletados por sensores militares.⁷ Projetos desse tipo refletem uma transformação mais profunda na organização do poder militar. A competição estratégica passa a depender cada vez mais da capacidade institucional de coletar, processar e transformar grandes quantidades de informação em inteligência operacional.
Conflitos recentes evidenciam essa transformação. Estudos sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia mostram o uso extensivo de drones comerciais adaptados para fins militares, bem como a crescente importância de imagens de satélite comerciais no monitoramento e na condução das operações.⁸ O campo de batalha contemporâneo depende cada vez mais de um ecossistema híbrido no qual sistemas militares tradicionais operam em conjunto com tecnologias produzidas por empresas privadas e cadeias globais de inovação.
A inteligência artificial representa um passo adicional nesse processo. No estágio atual, seu impacto principal não reside na substituição completa de combatentes humanos por sistemas autônomos, mas na ampliação da capacidade de análise de dados, reconhecimento de padrões e apoio à tomada de decisão militar.⁹ Ainda assim, o avanço dessas tecnologias levanta questões importantes. Organizações internacionais como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha alertam que sistemas autônomos e ferramentas algorítmicas podem acelerar o uso da força e reduzir o tempo disponível para avaliação humana em situações de conflito, criando desafios relevantes para a aplicação do direito internacional humanitário.¹⁰
Essas transformações indicam que a dimensão tecnológica da guerra contemporânea não se limita ao desenvolvimento de novos armamentos. Ela envolve também mudanças mais amplas na estrutura institucional da inovação e na forma como informação é integrada aos processos de decisão estratégica. Tecnologias de informação alteram o campo de batalha não apenas por ampliar a precisão ou a capacidade destrutiva, mas por modificar a velocidade com que dados são convertidos em decisões operacionais.
Crises internacionais recentes devem ser interpretadas à luz dessa transformação mais ampla. O desenvolvimento histórico da computação, da internet e dos sistemas de navegação por satélite demonstra que a guerra desempenhou um papel central na formação da infraestrutura tecnológica do mundo contemporâneo. No século XXI, entretanto, inovação civil e militar tornaram-se cada vez mais interdependentes, reduzindo as fronteiras entre economia digital, infraestrutura informacional e capacidade estratégica.
A questão central para o futuro da segurança internacional não é apenas quais Estados possuem tecnologias mais avançadas, mas quais conseguem integrar inovação tecnológica, processamento de dados e decisão estratégica de forma mais eficaz. Em um ambiente internacional cada vez mais estruturado por fluxos de informação e automação, a capacidade de transformar dados em ação estratégica tende a tornar-se um dos principais determinantes do poder no século XXI.
Referências
Lawrence Freedman, The Future of War: A History (New York: PublicAffairs, 2017).
Alex Roland, War and Technology: A Very Short Introduction (Oxford: Oxford University Press, 2016)
B. Jack Copeland (ed.), Colossus: The Secrets of Bletchley Park’s Codebreaking Computers (Oxford: Oxford University Press, 2006).
Paul Ceruzzi, A History of Modern Computing (Cambridge: MIT Press, 2003).
Janet Abbate, Inventing the Internet (Cambridge: MIT Press, 1999).
Elliot Kaplan e Christopher Hegarty, Understanding GPS: Principles and Applications (Boston: Artech House, 2005).
U.S. Department of Defense, “Project Maven Industry Day”, 2017.
CSIS, Insights from the Russia–Ukraine War (Washington, DC: Center for Strategic and International Studies, 2025).
Paul Scharre, Army of None: Autonomous Weapons and the Future of War (New York: W. W. Norton, 2018).
International Committee of the Red Cross, Autonomous Weapon Systems: Technical, Military, Legal and Humanitarian Aspects (Geneva, 2021).





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