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Por que a Venezuela importa para os EUA? O que está por trás da captura de Maduro?

Nota: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição deste site.


Foto publicada no Truth Social pelo presidente Donald Trump mostra o líder venezuelano Nicolás Maduro, capturado pelos EUA, a bordo do USS Iwo Jima.
Foto publicada no Truth Social pelo presidente Donald Trump mostra o líder venezuelano Nicolás Maduro, capturado pelos EUA, a bordo do USS Iwo Jima.

Os Estados Unidos realizaram uma série de ataques na Venezuela, atingindo alvos civis e militares em Caracas, capital do país. Testemunhas relataram explosões, colunas de fumaça e interrupções no fornecimento de energia em algumas áreas. Washington descreveu essas ações como parte de uma operação mais ampla que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, sob acusações de narcotráfico e narco-terrorismo. Ambos foram levados para Nova York para responder a processos na Justiça dos Estados Unidos, e a administração Trump afirmou pretender desempenhar um papel direto na “estabilidade” da Venezuela até que seja definida uma transição política.


A operação passou a ser comparada a episódios marcantes da história recente, como a invasão do Panamá em 1989, e abriu imediatamente amplo debate internacional sobre legalidade, soberania e os limites do uso da força. Para alguns analistas, os Estados Unidos ultrapassaram uma linha sensível ao capturar um chefe de Estado em exercício; para outros, tratou-se de uma medida necessária diante do que consideram um regime ilegítimo.


  • No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou de forma contundente os ataques, qualificando-os como afronta inaceitável à soberania venezuelana e como precedente perigoso para a ordem internacional. Embora sem citar diretamente os Estados Unidos, o presidente manifestou claro incômodo com a operação e com os riscos de desestabilização regional.

  • Na França, o posicionamento também foi crítico. O governo francês afirmou que apenas o povo venezuelano deve decidir o seu futuro político, defendendo uma transição pacífica e institucionalmente respeitosa, além de enfatizar a necessidade de observância do direito internacional e da Carta das Nações Unidas.

  • A União Europeia, de modo geral, adotou uma postura de preocupação. O bloco pediu moderação, respeito às normas internacionais e atenção especial à segurança de cidadãos europeus residentes na Venezuela. Mesmo sem reconhecer Maduro como presidente legítimo, a UE manifestou desconforto em relação à intervenção militar.

  • Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro condenou a operação e defendeu que o tema seja levado imediatamente a organismos multilaterais, como a ONU e a OEA. Ele alertou para o risco de ampliação da instabilidade em toda a América do Sul.

  • A China também reagiu de maneira firme, declarando-se “chocada” com o uso da força pelos Estados Unidos contra um país soberano e argumentando que a operação viola o direito internacional e ameaça a paz na região latino-americana.

  • A Rússia adotou posição semelhante, afirmando tratar-se de violação do princípio da autodeterminação dos povos, pedindo a não escalada militar e expressando apoio político ao governo venezuelano.

  • Em sentido oposto a grande parte da região, o presidente da Argentina, Javier Milei, manifestou apoio explícito à ação norte-americana. Ele elogiou a operação e afirmou enxergá-la como um avanço da liberdade, alinhando seu discurso ao do presidente Donald Trump.


Por sua vez, o governo dos Estados Unidos justificou a operação principalmente com base nas acusações de narcotráfico. Segundo Trump, Maduro comandaria uma ampla estrutura criminosa ligada ao tráfico de drogas e ao narco-terrorismo, e sua captura representaria uma forma de proteger a segurança da população norte-americana e de levá-lo à Justiça. Esse é o discurso oficial. Entretanto, uma análise mais ampla do contexto suscita questionamentos adicionais: trata-se apenas de combate às drogas ou há interesses mais amplos envolvidos? Um elemento central para compreender a crise é o petróleo.


A Venezuela detém uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Esse fator, por si só, projeta o país ao centro de disputas geopolíticas globais. Embora os Estados Unidos sejam hoje grandes produtores, especialmente após a expansão do petróleo de xisto, isso não elimina o interesse por fontes externas. Há, ademais, um aspecto técnico relevante é a parcela significativa do petróleo norte-americano é leve, enquanto o venezuelano é pesado, e diversas refinarias nos Estados Unidos foram projetadas para processar petróleo pesado. Há, portanto, um encaixe econômico concreto, que envolve infraestrutura já existente, cadeias produtivas consolidadas e interesses financeiros de longa data.


Controlar, ou ao menos influenciar, o fluxo do petróleo venezuelano significa também exercer poder sobre uma variável essencial da economia mundial: o preço do barril. Em um cenário de tensões, guerras e sanções, a capacidade de atuação nesse campo amplia o poder de barganha econômico e diplomático. O petróleo converte-se, assim, em instrumento de política externa, e a Venezuela, mesmo debilitada economicamente, permanece ator relevante justamente por deter vastas reservas.


Outro aspecto relevante é a mudança gradual na presença empresarial estrangeira no setor energético venezuelano. A participação de companhias norte-americanas e ocidentais diminuiu nos últimos anos, enquanto China e Rússia ampliaram seu espaço. Há, portanto, também uma disputa estratégica sobre quem estará ao lado de Caracas nas próximas décadas, quem financiará infraestrutura, obterá contratos e prioridade em exportações. Há ainda um componente geopolítico regional significativo. A Venezuela ocupa posição estratégica próxima ao Caribe, ao Canal do Panamá e a importantes rotas marítimas, além de situar-se na área de influência direta dos Estados Unidos. A instabilidade nessa região é vista como fator de risco por Washington, ao passo que a influência política e econômica ali é considerada de alto interesse estratégico.


Diante de todos esses elementos, torna-se evidente que a narrativa do narcotráfico, isoladamente, não esgota a compreensão do episódio. Ainda que as acusações existam, a dimensão energética amplia substancialmente o debate. Não se trata apenas da captura de um líder político acusado de crimes, mas de uma disputa pela influência sobre uma das maiores reservas de petróleo do planeta e, consequentemente, sobre preços, rotas de abastecimento e equilíbrios de poder entre grandes potências.


Discutir o petróleo venezuelano significa, portanto, discutir cadeias industriais, logística, inflação, custos de vida e capacidade de projeção de poder em várias regiões do mundo. Seu impacto transborda fronteiras nacionais. O cenário atual revela, assim, uma conjuntura complexa e multifacetada: envolve o discurso de combate às drogas, a controvérsia jurídica em torno da captura de um chefe de Estado, as reações internacionais divergentes e, no centro de tudo, a questão energética. O petróleo, ainda que nem sempre explicitado nos pronunciamentos oficiais, ajuda a explicar a intensidade, a urgência e as apostas elevadas dessa crise. Compreender o que ocorre hoje na Venezuela exige necessariamente levar esse fator em consideração.


Essa matéria também está disponível em vídeo: https://youtu.be/SkKpVD14Wdc?si=i9MTCDsCR_BK8vyz


Referências


GONZALEZ, Juan S. The End of the Beginning in Venezuela. Foreign Affairs. Disponível em: <https://www.foreignaffairs.com/venezuela/end-beginning-venezuela-maduro-trump>.


ROY, Diana. Operation Southern Spear: The U.S. Military Campaign Targeting Venezuela. Council on Foreign Relations. Disponível em: <https://www.cfr.org/article/operation-southern-spear-us-military-campaign-targeting-venezuela>.

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