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Por que a ONU quer mudar o mapa-múndi e os EUA disseram não?

Foto do escritor: João Pedro Nascimento
João Pedro Nascimento
6 de set.
4 min de leitura

Nota: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição deste site.


Mapa-múndi físico na projeção de Mercator destacando a distorção de tamanho dos continentes e polos com imagens de satélite.
Ilustração de mapa-múndi na projeção de Mercator (Foto: Daniel R. Strebe)

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, por 164 votos a 1, uma resolução que incentiva a adoção de uma nova forma de representar o mundo nos mapas. O único voto contrário veio dos Estados Unidos. O alvo da resolução é a predominância da projeção de Mercator, criada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator. É importante reconhecer que sua criação não teve como objetivo diminuir a África ou favorecer determinadas regiões. A projeção foi desenvolvida principalmente para facilitar a navegação, preservando determinadas relações de direção que eram fundamentais para os navegadores. O problema está em seu uso posterior como representação geral do planeta. Ao transformar uma superfície esférica em um mapa plano, a projeção distorce o tamanho dos territórios, fazendo com que regiões próximas aos polos pareçam muito maiores do que realmente são.


Por que a ONU quer mudar o mapa-múndi e os EUA disseram não? 


A resposta começa pela forma como enxergamos o tamanho dos territórios. A consequência dessa distorção pode ser observada de maneira bastante evidente quando se compara a Groenlândia com a África. Em um mapa de Mercator, a Groenlândia pode parecer próxima em tamanho ao continente africano, quando, na realidade, a África possui aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia. O mesmo princípio afeta outras regiões próximas ao equador, como a América Latina e partes da Ásia. Não significa que quem utiliza Mercator esteja conscientemente reproduzindo uma visão equivocada do mundo, mas significa que milhões de pessoas aprenderam durante décadas a visualizar os territórios por meio de uma representação que não preserva suas proporções reais.


A nova proposta incentiva o uso de projeções de área equivalente, especialmente a Equal Earth, desenvolvida em 2018 pelos cartógrafos Tom Patterson, Bernhard Jenny e Bojan Šavrič. Diferentemente da Mercator, a Equal Earth busca preservar a proporção relativa das áreas terrestres. O resultado visual é significativo. A África aparece muito maior, a Groenlândia perde a aparência desproporcional que adquiriu em muitos mapas tradicionais e países como o Brasil passam a ocupar visualmente uma dimensão mais próxima de sua área real. Há, naturalmente, outras distorções, principalmente nas formas dos territórios, porque não existe uma maneira de representar perfeitamente uma esfera em uma superfície plana.


Mapa-múndi na projeção Equal Earth em português mostrando os países do mundo com proporções de área equivalentes em formato oval.
A projeção Equal Earth reflete com precisão os tamanhos relativos dos países. (Foto: Equal Earth)

A resolução reconhece que a representação cartográfica também possui uma dimensão política e cultural. Durante muito tempo, a África foi apresentada ao público internacional por meio de narrativas externas ao próprio continente, frequentemente associadas à pobreza, conflitos, dependência e subdesenvolvimento. A forma como o continente aparece nos mapas não explica essas percepções, evidentemente, mas tampouco é irrelevante. Quando uma região que possui mais de 30 milhões de quilômetros quadrados aparece visualmente próxima do tamanho da Groenlândia, existe uma diferença considerável entre aquilo que o mapa mostra e aquilo que a geografia efetivamente representa.


É justamente por isso que considero positiva a decisão da Assembleia Geral. A resolução não determina que o planeta inteiro abandone imediatamente a projeção de Mercator, nem possui força jurídica para obrigar governos, escolas ou empresas privadas a substituí-la. Seu significado está na orientação política e simbólica para que organizações internacionais, instituições educacionais, governos e plataformas digitais considerem alternativas capazes de representar melhor as proporções territoriais.


A reação dos Estados Unidos também acrescenta uma dimensão interessante ao episódio. Washington foi o único país a votar contra a resolução, argumentando que a Assembleia Geral deveria concentrar seus esforços em questões mais relevantes para a paz, a prosperidade e as relações internacionais. É uma crítica que merece ser considerada, sobretudo porque a ONU enfrenta problemas concretos e urgentes que não serão solucionados por uma mudança de projeção cartográfica. No entanto, transformar o debate em uma escolha entre mapas e problemas reais cria uma falsa oposição. Uma organização internacional pode discutir segurança, desenvolvimento e conflitos e, simultaneamente, questionar ferramentas utilizadas há séculos para representar o mundo.


A adoção de uma projeção mais proporcional também não deve ser interpretada como uma tentativa de reescrever a história ou atribuir intenções políticas a Gerardus Mercator que não correspondem ao contexto de sua obra. Uma ferramenta criada no século XVI para uma finalidade específica não precisa permanecer como padrão absoluto no século XXI simplesmente porque se tornou familiar. Se existem tecnologias e metodologias cartográficas capazes de representar melhor as proporções do planeta para determinadas finalidades, utilizá-las é uma evolução natural, e não uma negação do passado.


A África, por sua vez, tem razões legítimas para defender essa mudança. O continente não é apenas geograficamente muito maior do que a representação tradicional pode sugerir. É também um espaço de enorme peso demográfico, econômico, estratégico e diplomático, com recursos naturais, mercados consumidores, infraestrutura em expansão e crescente relevância nas disputas entre grandes potências. A representação correta de seu território não resolverá nenhum desses desafios, mas contribui para corrigir uma percepção visual que durante gerações subestimou sua dimensão.


No fim, mudar um mapa não muda a realidade. A África continuará tendo os mesmos territórios, os mesmos desafios e as mesmas oportunidades independentemente da projeção utilizada. Mas a forma como representamos a realidade influencia aquilo que aprendemos sobre ela. Se o objetivo é construir uma compreensão mais precisa do sistema internacional, faz sentido começar também pelas ferramentas básicas através das quais ensinamos as próximas gerações a enxergá-lo.


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