Opinião: Música sem músicos? A arte sob ameaça da IA
- João Pedro Nascimento

- 5 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
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Nos últimos meses, a indústria da música vem testemunhando um movimento inédito: alguns dos maiores artistas vivos estão recorrendo ao silêncio como forma de protesto. Paul McCartney, aos 83 anos, anunciou o lançamento de uma faixa quase inaudível, apenas ruídos de estúdio e o vazio, para simbolizar algo que, em breve, pode deixar de ser metáfora e virar realidade: a morte criativa de uma geração inteira de compositores caso o avanço da inteligência artificial siga explorando obras musicais sem consentimento.
Essa intervenção artística não surge isolada. Kate Bush, Hans Zimmer, Sam Fender, Pet Shop Boys, Max Richter e Elton John, nomes que moldaram a identidade da música britânica e global, estão publicamente pressionando o governo do Reino Unido para conter o apetite das big techs por dados e obras alheias.
Hoje, a IA consegue compor músicas inteiras em segundos, imitar vozes de artistas famosos, replicar estilos e produzir bandas inteiras, como o caso da Velvet Sundown, grupo fictício que conquistou mais de um milhão de streams antes de admitir que não havia músicos por trás, apenas algoritmos. O que está em questão não é apenas estética ou autenticidade. É sobrevivência econômica de compositores jovens que vivem de royalties e grande parte da receita vem desses usos secundários e autorais, justamente o tipo de dado que empresas pretendem usar sem compensação.
Quando IA usa esse material para competir com o trabalho original e, pior, sem identificação clara, cria-se um ambiente em que a música humana perde valor e visibilidade. Não por falta de talento, mas por uma lógica de escala de produção. É por isso que Elton John foi tão explícito ao chamar de “criminal” a proposta do governo britânico de permitir o uso sem permissão de obras protegidas por direitos autorais.
O Estado, ao permitir a exploração irrestrita de obras protegidas, passa a favorecer quem automatiza a criatividade em detrimento de quem a produz.
Plataformas como Spotify vivem hoje um conflito estrutural. Enquanto enfrentam críticas pela presença crescente de músicas geradas por IA, muitas vezes sem rotulagem, também mantêm relações estreitas com grandes empresas de tecnologia. O resultado é um ecossistema onde artistas não sabem quando sua obra foi usada para treinar modelos, ouvintes não sabem o que é humano ou artificial, plataformas ganham eficiência enquanto os criadores perdem remuneração. Mais grave ainda, parte desses conteúdos tem sido usada em operações fraudulentas de streaming, inflando números e drenando receitas que deveriam ir para criadores legítimos. Não por acaso, organizações como a Ivors Academy, o BPI e artistas independentes exigem rotulagem obrigatória de músicas geradas por IA. Transparência básica, o mínimo para consumidores poderem escolher e para músicos defenderem seus direitos.
Tanto o Reino Unido quanto os EUA enfrentam a pressão de gigantes tecnológicas, que defendem o acesso irrestrito a conteúdos protegidos como fundamental para o avanço da IA. O impasse não está apenas na legislação, mas também na legitimidade. Um governo que tenta agradar tanto big techs quanto artistas acaba não entregando confiança a nenhum dos lados.
Música não é só produto. É identidade, memória, expressão humana. É aquilo que Paul McCartney, Kate Bush ou Elton John fazem porque ninguém mais consegue fazer igual. Se permitirmos que a IA seja treinada sobre esse patrimônio sem limites, sem consentimento e sem compensação, corremos o risco de reduzir a criatividade humana a ruído de fundo, como no protesto silencioso de McCartney.
A resposta depende das escolhas que governos, plataformas e consumidores fazem agora. A música sempre foi um diálogo entre gerações e a tecnologia pode fortalecê-lo, desde que não silencie os músicos no processo.
Referências
BAKARE, Lanre. An AI-generated band got 1m plays on Spotify. Now music insiders say listeners should be warned. The Guardian. Disponível em: <https://www.theguardian.com/technology/2025/jul/14/an-ai-generated-band-got-1m-plays-on-spotify-now-music-insiders-say-listeners-should-be-warned>.
BOOTH, Robert. Paul McCartney joins music industry protest against AI with silent track. the Guardian. Disponível em: <https://www.theguardian.com/music/2025/nov/17/the-sound-of-silence-why-theres-barely-anything-there-in-paul-mccartney-new-release>.
MCCARTNEY, Paul. Paul McCartney | News | Paul joins music industry protest against AI with silent song release. Paulmccartney.com. Disponível em: <https://www.paulmccartney.com/news/paul-joins-music-industry-protest-against-ai-with-silent-song-release>.
MILMO, Dan. Elton John calls UK government “absolute losers” over AI copyright plans. The Guardian. Disponível em: <https://www.theguardian.com/music/2025/may/18/elton-john-says-uk-government-being-absolute-losers-over-ai-copyright-plans>.
YOUNG, Alex. Spotify Unwrapped Campaign Calls for Boycott in Protest of ICE Ads, AI Music on Platform. Consequence. Disponível em: <https://consequence.net/2025/12/spotify-unwrapped-boycott-ice-ai/>.




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