Nem Oriente, nem Ocidente: a estratégia de sobrevivência da Turquia
- João Pedro Nascimento

- há 9 horas
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Nas últimas duas décadas, tornou-se recorrente a percepção de que a Turquia estaria se afastando definitivamente do Ocidente e aproximando-se da Rússia. Desde a chegada de Recep Tayyip Erdoğan ao poder, diversos acontecimentos reforçaram essa narrativa, como a deterioração das relações com os Estados Unidos, a compra do sistema russo de defesa aérea S-400, a resistência inicial à entrada de Finlândia e Suécia na OTAN e a intensificação da cooperação econômica e energética com Moscou. No entanto, essa leitura simplifica uma política externa marcada pelo pragmatismo, pois a aproximação com Moscou constitui uma estratégia voltada à ampliação da autonomia estratégica turca e do seu poder de barganha em um cenário internacional cada vez mais multipolar.
A política externa conduzida por Erdoğan buscou reduzir a dependência da Turquia em relação aos Estados Unidos e à Europa, ampliando sua capacidade de negociar simultaneamente com diferentes polos de poder. Em vez de aceitar uma posição subordinada dentro da OTAN, Ancara procurou construir uma política externa mais independente, capaz de dialogar ao mesmo tempo com Rússia, China, países do Oriente Médio e potências ocidentais. A aproximação com Moscou, portanto, é um instrumento para aumentar o poder de barganha turco e ampliar sua margem de manobra diante das grandes potências.
Essa aproximação com a Rússia foi impulsionada por fatores concretos. O episódio do abatimento de um caça russo em 2015 marcou um momento de profunda insegurança para Ancara, que esperava maior apoio dos aliados da OTAN diante da possibilidade de retaliação militar russa. Ao mesmo tempo, as relações com Washington estavam deterioradas devido ao apoio norte-americano às milícias curdas na Síria, consideradas pela Turquia uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização classificada como terrorista pelo governo turco. A percepção de abandono por parte dos aliados ocidentais foi reforçada após a tentativa de golpe de Estado em 2016, quando Vladimir Putin foi um dos primeiros líderes internacionais a oferecer apoio político a Erdoğan, enquanto a reação dos governos ocidentais foi vista em Ancara como lenta e hesitante. Nesse contexto, fortalecer a relação com Moscou tornou-se uma alternativa racional para reduzir vulnerabilidades e ampliar opções estratégicas.
A aquisição do sistema S-400 simbolizou esse período de maior aproximação entre Turquia e Rússia. A compra mostrava que Ancara pretendia diversificar seus fornecedores de defesa e afirmar sua independência frente aos Estados Unidos. Contudo, essa decisão produziu elevados custos. A exclusão da Turquia do programa do caça F-35, as sanções norte-americanas e o comprometimento das relações com a OTAN evidenciaram que a busca por autonomia possuía limites concretos. A indústria de defesa turca, embora bastante desenvolvida, continua profundamente integrada às cadeias produtivas ocidentais, dependendo de componentes, financiamento e cooperação tecnológica provenientes principalmente dos Estados Unidos e da Europa. Dessa forma, a tentativa de substituir parcialmente essa dependência pela parceria com a Rússia mostrou-se mais onerosa do que inicialmente previsto.
O agravamento da crise econômica interna, marcado por inflação elevada, desvalorização da moeda, perda de reservas internacionais e redução da confiança dos investidores, tornou evidente que o país necessitava reconstruir sua credibilidade junto aos mercados financeiros ocidentais. O terremoto devastador de 2023 agravou ainda mais esse cenário, ampliando as necessidades de investimento externo e de recuperação econômica. Assim, a política externa passou a ser influenciada menos por objetivos de projeção internacional e mais pela necessidade de estabilizar a economia doméstica. A nomeação de Mehmet Şimşek para conduzir a política econômica simbolizou esse processo de reaproximação com investidores internacionais e de retorno a políticas macroeconômicas mais ortodoxas.
Outro elemento é a guerra entre Rússia e Ucrânia. O conflito evidenciou a tentativa turca de manter uma posição intermediária entre os dois lados. Ancara condenou a invasão russa, forneceu drones militares à Ucrânia e apoiou resoluções das Nações Unidas contrárias à agressão de Moscou. Ao mesmo tempo, recusou-se a aderir às sanções econômicas promovidas pelo Ocidente, preservando intensas relações comerciais com a Rússia e funcionando como importante canal econômico para Moscou. Essa postura permitiu que a Turquia mantivesse sua posição como mediadora entre as partes e preservasse seus interesses econômicos. Entretanto, com o prolongamento da guerra, aumentaram tanto as pressões norte-americanas quanto os riscos de sanções secundárias, tornando economicamente mais custoso manter o mesmo nível de cooperação com a Rússia.
Mudanças na dinâmica regional contribuíram para reduzir a importância estratégica da parceria russo-turca. A perda de influência de Moscou na Síria após a queda do regime de Bashar al-Assad alterou significativamente o equilíbrio regional. Durante anos, a Turquia precisou negociar constantemente com a Rússia para proteger seus interesses no território sírio. Com a mudança do cenário político em Damasco, essa dependência diminuiu consideravelmente. Paralelamente, Ancara passou a enxergar maiores oportunidades de integração com projetos europeus de defesa e com programas de modernização militar conduzidos pelos aliados da OTAN, reforçando os incentivos para restabelecer relações mais próximas com o Ocidente.
Em síntese, a política externa turca continua sendo orientada por uma lógica de sobrevivência estratégica. Em vez de escolher definitivamente entre Oriente e Ocidente, Ancara procura preservar sua liberdade de ação em um ambiente internacional marcado pela competição entre grandes potências. Sua estratégia não consiste em substituir um alinhamento por outro, mas em explorar as oportunidades oferecidas por diferentes polos de poder para maximizar seus interesses econômicos, militares e diplomáticos. Nesse sentido, a Turquia permanece menos comprometida com blocos ideológicos do que com a manutenção de sua autonomia e de sua capacidade de adaptação às transformações da ordem internacional.
Leitura recomendada:
Turkey: A modern history (Erik J. Zürcher)
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