Burnham e a reconstrução do Reino Unido
- João Pedro Nascimento

- há 4 dias
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Quando David Cameron convocou o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia em 2016, o objetivo era resolver uma divisão interna do Partido Conservador. O resultado produziu exatamente o oposto, o Brexit inaugurou uma década de instabilidade política que nenhum governo conseguiu superar. É nesse contexto que se insere a discussão sobre Burnham e a reconstrução do Reino Unido, uma tentativa de responder aos desafios políticos, econômicos e estratégicos acumulados desde o Brexit.
A posse de Andy Burnham como sétimo primeiro-ministro britânico desde o Brexit simboliza a continuidade de uma crise estrutural do Estado britânico. Em dez anos, seis governos caíram por razões diferentes, seja por derrota política, impasses parlamentares, escândalos, colapsos econômicos ou disputas internas. Mas todos enfrentaram o mesmo desafio de redefinir o papel do Reino Unido em um mundo onde sua posição estratégica, econômica e diplomática tornou-se menos evidente.
O Brexit resolveu a questão formal da relação entre Londres e Bruxelas. Não resolveu, porém, uma pergunta mais profunda: qual modelo de país o Reino Unido pretende ser após abandonar o maior projeto de integração econômica do continente?
Sete primeiros-ministros em 10 anos
David Cameron caiu porque perdeu o referendo. Theresa May fracassou ao negociar a saída da União Europeia. Boris Johnson foi derrubado por sucessivos escândalos. Liz Truss provocou uma crise de confiança nos mercados financeiros. Rishi Sunak pagou o desgaste acumulado de quatorze anos de governos conservadores. Keir Starmer, apesar da ampla vitória eleitoral em 2024, não conseguiu estabilizar sua própria coalizão política.
Cada governo administrou sintomas distintos de um mesmo problema: o Reino Unido entrou em uma fase de transição sem consenso sobre seu destino econômico, institucional e internacional. O Brexit eliminou antigas restrições impostas pela União Europeia, mas também removeu parte da previsibilidade que orientava a política externa e econômica britânica desde os anos 1970. Ao contrário do slogan "Global Britain", adotado após a saída do bloco europeu, Londres ainda busca transformar autonomia formal em influência efetiva.
Burnham e o modelo britânico
Andy Burnham chega ao poder oferecendo uma interpretação diferente das dificuldades do país. Sua tese central é que o principal problema britânico reside na excessiva concentração econômica e política em Londres. Seu conceito de Manchesterism procura deslocar o eixo do desenvolvimento nacional para regiões historicamente negligenciadas, combinando descentralização administrativa, política industrial, investimentos em infraestrutura e fortalecimento dos serviços públicos.
Em certo sentido, Burnham aproxima-se das estratégias de reindustrialização que vêm ganhando espaço em diversas economias desenvolvidas. Nos Estados Unidos, a política industrial voltou ao centro da agenda após o Inflation Reduction Act. A União Europeia passou a discutir autonomia estratégica, cadeias produtivas críticas e segurança econômica. Japão e Coreia do Sul também ampliaram políticas de incentivo à indústria de alta tecnologia.
O novo primeiro-ministro parece reconhecer que o ambiente internacional atual oferece menos espaço para modelos baseados exclusivamente na liberalização econômica e maior dependência das cadeias globais de produção. Sua proposta, portanto, está alinhada a uma tendência mais ampla de retorno do Estado como coordenador do desenvolvimento econômico.
O Reino Unido continua enfrentando crescimento modesto, produtividade estagnada, serviços públicos pressionados e elevado endividamento. Ao mesmo tempo, o novo governo promete preservar disciplina fiscal para evitar repetir a perda de credibilidade observada durante o breve governo de Liz Truss. Essa tensão resume um dilema compartilhado por diversas democracias desenvolvidas, que é como ampliar investimentos públicos necessários para aumentar competitividade e segurança econômica sem comprometer a confiança dos mercados financeiros.
A política externa do Reino Unido e seus desafios
Na política externa, Burnham provavelmente buscará maior equilíbrio entre continuidade e adaptação. Não há sinais de ruptura com os pilares tradicionais da estratégia britânica. O compromisso com a OTAN, o apoio à Ucrânia e a parceria de inteligência com os Estados Unidos permanecem centrais.
Enquanto governos anteriores concentraram esforços na reconstrução da relação especial com Washington após o Brexit, Burnham parece enxergar maior espaço para aprofundar a cooperação com parceiros europeus em temas como política industrial, segurança econômica, tecnologia, defesa e energia. Isso não significa reabrir o debate sobre o retorno à União Europeia, uma possibilidade politicamente distante. Significa reconhecer que a fragmentação do sistema internacional aproxima novamente Londres e Bruxelas diante de desafios comuns.
Ao mesmo tempo, o novo governo assume em um ambiente geopolítico significativamente mais complexo do que aquele enfrentado por Cameron em 2016. A guerra na Ucrânia permanece sem solução definitiva. A crise envolvendo Irã e Israel continua ameaçando importantes rotas comerciais globais. A rivalidade entre Estados Unidos e China acelera a fragmentação tecnológica e comercial. Questões como inteligência artificial, minerais críticos e cadeias de suprimentos tornaram-se componentes permanentes da política externa das grandes potências. Nesse contexto, a margem de manobra britânica é menor do que durante a era de hegemonia liberal do pós-Guerra Fria.
O principal desafio de Andy Burnham será restaurar algo que o Reino Unido perdeu desde 2016, a previsibilidade. Parceiros internacionais, investidores e aliados passaram a enxergar Londres como um sistema político sujeito a mudanças frequentes de liderança e prioridades. Essa percepção reduz a capacidade britânica de exercer influência internacional, independentemente de seu poder militar, diplomático ou financeiro.
Burnham herda um país que continua sendo uma das maiores economias do mundo, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, potência nuclear e ator relevante na OTAN. Mas também herda um Estado cuja estratégia nacional permanece incompleta. Sua oportunidade está justamente em transformar uma década marcada pela gestão de crises em um projeto coerente de longo prazo. Seu risco é tornar-se apenas mais um líder consumido pelas mesmas pressões estruturais que derrubaram seus seis antecessores.





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