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Quando a instabilidade vira método na política internacional: Ucrânia, Gaza,Venezuela e a Groenlândia na reconfiguração da governança da segurança

Nota: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição deste site.


Imagem criada por IA.
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A política internacional contemporânea passa por mudanças relevantes na forma como a segurança global é governada. Conflitos armados, crises humanitárias e disputas estratégicas deixaram de ser tratados como episódios excepcionais e passaram a compor um padrão recorrente de instabilidade prolongada. A capacidade do sistema internacional de produzir previsibilidade, impor limites claros ao uso da força e criar condições políticas para o encerramento de crises encontra-se progressivamente reduzida. Em seu lugar, consolida-se uma lógica de administração contínua da instabilidade, marcada por respostas fragmentadas, seletivas e fortemente condicionadas por assimetrias de poder.


Falar em reconfiguração da governança da segurança não implica a substituição completa das instituições multilaterais existentes nem o surgimento de uma nova arquitetura normativa consolidada. O que se observa é um deslocamento gradual, porém consistente, nas práticas por meio das quais crises de segurança são administradas. Instituições universais permanecem formalmente ativas, mas perdem centralidade decisória, enquanto arranjos ad hoc, coalizões restritas e instrumentos unilaterais assumem funções centrais na contenção de conflitos, na imposição de custos e na gestão de riscos. Trata-se de uma mudança operacional e política, antes de institucional ou jurídica.


Dados sistematizados pelo Armed Conflict Location and Event Data Project indicam níveis persistentemente elevados de violência política em escala global, com forte concentração em conflitos de longa duração caracterizados por elevada letalidade civil, multiplicidade de atores armados e impactos transnacionais duradouros. Esses conflitos tendem a se prolongar no tempo e a operar por ciclos recorrentes de escalada e contenção, sem mecanismos eficazes de encerramento. Em paralelo, o Stockholm International Peace Research Institute registra recordes sucessivos nos gastos militares globais, que já ultrapassam dois trilhões de dólares anuais, com aumentos disseminados entre grandes potências e Estados médios. O contraste entre violência persistente e expansão do investimento militar indica que a resposta predominante do sistema internacional tem sido a ampliação de capacidades coercitivas, e não o fortalecimento de instrumentos coletivos de prevenção e resolução de conflitos.


Esse deslocamento tem implicações diretas para a governança da segurança. A ação internacional privilegia a contenção de riscos imediatos e a gestão de externalidades negativas, em detrimento da construção de soluções políticas duradouras. Conflitos deixam de ser concebidos como problemas a serem resolvidos e passam a ser tratados como condições a serem administradas. O horizonte temporal das decisões encurta, e a ambição normativa das instituições multilaterais é reduzida.


A guerra na Ucrânia ilustra com clareza esse padrão. Desde seus primeiros meses, o conflito passou a ser tratado como uma condição de longa duração, cuja governança se organiza em torno da sustentação militar continuada, da contenção da escalada direta entre grandes potências e da gestão de riscos sistêmicos associados ao conflito, incluindo impactos energéticos, econômicos e nucleares. O objetivo predominante tem sido manter um equilíbrio instável capaz de evitar desdobramentos considerados inaceitáveis pelos principais atores envolvidos, e não construir um acordo político abrangente.


Nesse arranjo, o Conselho de Segurança das Nações Unidas ocupa um papel secundário. Vetos cruzados e alinhamentos rígidos entre seus membros permanentes limitam sua capacidade de atuação substantiva. A coordenação política relevante ocorre fora do marco multilateral universal, em coalizões restritas, fóruns informais e acordos bilaterais, caracterizados por baixa institucionalização e reduzida transparência. A governança da guerra desloca-se para arenas paralelas, nas quais a legitimidade decorre da capacidade material e do alinhamento estratégico, e não de normas universalmente acordadas.


Esse padrão contribui para a normalização de guerras prolongadas, administradas para evitar colapsos sistêmicos, mas sem instrumentos eficazes de encerramento. A segurança passa a ser definida por equilíbrios políticos contingentes, e o multilateralismo assume funções complementares, como gestão humanitária, monitoramento limitado e produção de legitimidade parcial.


O conflito em Gaza evidencia outra dimensão dessa reconfiguração. Informações sistematizadas pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos

Humanitários indicam níveis extremos de destruição civil, deslocamento forçado em larga escala e colapso de serviços essenciais. Ao mesmo tempo, os esforços diplomáticos internacionais concentram-se na negociação de cessar-fogos temporários e limitados, frequentemente condicionados por cálculos estratégicos externos ao próprio conflito e desvinculados de um horizonte político sustentável.


A governança da segurança nesse contexto opera por ciclos previsíveis de escalada, pressão internacional, pausa negociada e retomada das hostilidades. A ausência de mecanismos capazes de impor custos políticos efetivos a violações reiteradas de normas contribui para a reprodução desse padrão. A assimetria de poder entre os atores envolvidos e a fragmentação das posições internacionais reduzem a capacidade do sistema multilateral de atuar como instância decisória central. A crise passa a ser incorporada como elemento estrutural da dinâmica regional.


A Venezuela completa esse quadro a partir de uma lógica distinta, mas convergente. Embora não esteja inserida em um conflito armado interestatal, o caso venezuelano evidencia a consolidação de instrumentos unilaterais de coerção política no tratamento de crises internas com repercussões internacionais. Registros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos documentam a ampliação e a complexificação de regimes de sanções econômicas, combinados com estratégias de reconhecimento seletivo de autoridades e pressões diplomáticas exercidas fora de marcos multilaterais robustos.


Do ponto de vista da governança global, o aspecto central não é apenas a situação

venezuelana, mas o precedente que se consolida quando exceções normativas passam a ser aplicadas de forma recorrente e seletiva. Princípios como soberania, não intervenção e resolução coletiva de controvérsias tornam-se condicionais e dependentes de alinhamentos políticos, reduzindo a previsibilidade normativa e a credibilidade institucional.


A Groenlândia, como ponto focal da crescente centralidade estratégica do Ártico, reforça essa mesma lógica em um contexto distinto. Embora se trate de um caso territorial específico, ele está inserido em uma dinâmica regional mais ampla de securitização preventiva, associada a transformações ambientais, abertura de novas rotas marítimas e intensificação da competição entre grandes potências. Esse processo ocorre majoritariamente fora de situações de conflito armado aberto, mas promove a reconfiguração antecipada de estratégias de defesa e alinhamentos de segurança.


Nesse contexto, observa-se o enfraquecimento do Conselho do Ártico como espaço efetivo de coordenação política, especialmente após a suspensão de mecanismos regulares de cooperação. Em contraste, arranjos associados à OTAN e a estratégias nacionais de segurança ganham centralidade na definição da governança da segurança regional. A Groenlândia adquire relevância estratégica como elo territorial e operacional desse processo, sem que isso implique a substituição formal das normas multilaterais existentes.


O que conecta esses diferentes casos é a consolidação de uma política internacional orientada pela urgência. Decisões são justificadas pela necessidade de agir rapidamente e pela dificuldade de construir consensos amplos em um sistema internacional fragmentado. Práticas excepcionais tornam-se recorrentes e previsíveis. A governança multilateral permanece formalmente existente, mas exerce funções secundárias em relação às arenas onde decisões centrais são efetivamente tomadas.


Esse padrão é reforçado por fatores domésticos. Processos eleitorais, polarização política interna e disputas institucionais influenciam escolhas de política externa e de segurança. A ação internacional torna-se, com frequência, extensão de conflitos políticos internos, reduzindo o espaço para compromissos multilaterais duradouros. Instrumentos coercitivos ganham centralidade por oferecerem respostas visíveis no curto prazo, mesmo quando produzem custos elevados no médio e no longo prazo.


As implicações desse cenário para a governança global da segurança são profundas. A previsibilidade diminui, normas são aplicadas de forma seletiva e instituições universais perdem centralidade política e capacidade normativa. A possibilidade de encerramento efetivo de conflitos é substituída por estratégias de contenção indefinida. Para países fora do núcleo decisório das grandes potências, isso se traduz em maior vulnerabilidade, menor capacidade de influência e acesso limitado a mecanismos eficazes de mediação.


O sistema internacional passa, assim, a operar em modo de manutenção, e não de construção. A segurança global é organizada em torno da gestão contínua de riscos, com horizontes temporais curtos e baixa ambição transformadora. O desafio central não é apenas responder à próxima crise, mas reconstruir condições mínimas para uma governança da segurança capaz de ir além da administração permanente da instabilidade.


Referências


Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED). ACLED Conflict


Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED). Conflict Index &


Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED). What’s Driving Conflict Today? Global Trends Review. https://acleddata.com/report/whats-driving-conflict-today-review-global-trends


Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Unprecedented Rise in Global Military Expenditure (Press Release, 28 abr. 2025). https://www.sipri.org/media/press-release/2025/unprecedented-rise-global-military-expenditure-european-and-middle-east-spending-surges


Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Trends in World Military Expenditure 2024 (Fact Sheet, 2025).


United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA).Occupied Palestinian Territory – Situation Reports (2025). https://www.unocha.org/occupied-palestinian-territory


U.S. Department of the Treasury – Office of Foreign Assets Control (OFAC). Venezuela Sanctions Program.


Arctic Council. Official Website and Statements on Cooperation Status. https://arctic-council.org

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