América Latina e África: parceria duradoura ou entusiasmo de curto prazo?
- João Pedro Nascimento

- há 4 dias
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A recente intensificação das relações entre América Latina e África pode ser lida tanto como ambição quanto insegurança. Os países do Sul Global voltam a testar a possibilidade de agir em conjunto, como eixo, dentro do contexto de um mundo onde as hierarquias tradicionais estão em disputa.
A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, ao promover um fórum com países africanos, encarna essa tentativa de construção de autonomia. Desde sua criação, o bloco carrega a ambição de oferecer um espaço de coordenação política sem a presença das potências do Norte, especialmente os Estados Unidos. Sendo assim, a CELAC funciona como um símbolo de um desejo recorrente na América Latina, o de falar com voz própria. Nesse contexto, a aproximação com a África surge quase como um desdobramento natural. Não apenas por razões históricas, embora o peso da diáspora africana na formação latino-americana seja central, mas porque ambos os espaços compartilham uma posição estrutural semelhante. A cooperação Sul-Sul, portanto, é também uma tentativa de reequilibrar essas condições.
Lideranças como Gustavo Petro e Francia Márquez (presidente e vice-presidente da Colômbia) e Lula, presidente do Brasil, têm sido particularmente explícitas ao articular essa visão. A política externa para a África combina três dimensões que raramente aparecem juntas com tanta clareza: identidade, estratégia e reforma institucional. Ao enfatizar laços afrodescendentes, o governo busca legitimar politicamente essa aproximação; ao expandir relações comerciais e diplomáticas, tenta torná-la pragmática; e, ao criar estruturas permanentes dentro do Estado, procura garantir sua continuidade.
Essa combinação é relevante porque toca no ponto mais sensível, sua durabilidade. A história recente da América Latina é marcada por ciclos políticos intensos, em que mudanças de governo frequentemente significam mudanças abruptas de orientação internacional. O passado oferece exemplos claros disso. Durante a chamada “maré rosa”, no início do século XXI, houve um impulso semelhante de aproximação com a África, acompanhado por uma retórica forte de solidariedade entre países do Sul. Naquele momento, a cooperação era, em grande medida, sustentada por afinidades ideológicas. Quando esse ciclo político se esgotou, muitas dessas iniciativas perderam fôlego. Não necessariamente por serem inviáveis, mas porque não haviam sido plenamente incorporadas como políticas de Estado. Esse é o risco que paira sobre o momento atual. A presença relativamente limitada de líderes latino-americanos em encontros recentes indica que o entusiasmo não é uniforme e, mais importante, que ele ainda depende fortemente de quem está no poder.

Ao mesmo tempo, reduzir esse movimento a uma agenda de governos de esquerda seria uma simplificação excessiva. A própria história da política externa latino-americana mostra que a busca por parcerias no Sul Global não é monopólio ideológico. Em diferentes momentos, inclusive sob governos conservadores ou autoritários, países da região procuraram diversificar suas relações internacionais, seja por necessidade econômica, seja por cálculo estratégico. O que parece novo, portanto, é o contexto em que ocorre. Hoje, a ordem internacional é mais fragmentada e competitiva. Potências médias buscam maior margem de manobra, enquanto grandes potências disputam influência em regiões antes consideradas periféricas. A África, em particular, tornou-se um espaço central dessa disputa. Para países latino-americanos, aproximar-se do continente africano, além de um gesto de solidariedade histórica, é também uma forma de não ficar à margem de rearranjos globais em curso.
Por outro lado, essa mesma competição global impõe limites. A presença crescente de atores como China, União Europeia e outros parceiros tradicionais significa que América Latina e África estão se encontrando em um terreno já densamente disputado. Isso exige que a cooperação entre elas vá além de declarações políticas e encontre nichos concretos de complementaridade. Caso contrário, corre o risco de ser ofuscada por relações mais consolidadas. É aqui que entra a dimensão institucional, talvez o fator mais decisivo para o futuro dessa aproximação. A abertura de embaixadas, a criação de mecanismos permanentes de diálogo e a incorporação do tema nas burocracias estatais são sinais de que algo mais duradouro pode estar sendo construído. Diferentemente de programas pontuais, essas estruturas criam inércia, tornam mais custoso politicamente e administrativamente abandonar a relação.
Ainda assim, instituições não são suficientes por si só. Elas precisam ser alimentadas por interesses reais e contínuos. Se a relação entre América Latina e África permanecer ancorada principalmente em simbolismo ou em agendas de curto prazo, sua sustentação será frágil. Por outro lado, se conseguir se apoiar em benefícios mútuos claros, sejam econômicos, tecnológicos ou políticos, terá mais chances de atravessar mudanças de governo. No fundo, o momento atual coloca em evidência a oscilação entre autonomia e dependência. A aproximação com a África representa uma aposta na autonomia. A ideia de que o Sul Global pode construir redes próprias de cooperação e influência. Mas essa aposta ainda convive com pressões que puxam na direção oposta, seja pela força das relações tradicionais, seja pelas mudanças internas de orientação política.
Será que esta agenda conseguirá se desvincular da lógica cíclica que historicamente marcou a região? Se permanecer atrelada a momentos políticos específicos, será mais um capítulo de entusiasmo passageiro. Se, ao contrário, conseguir se consolidar como política de Estado, poderá sinalizar algo mais profundo. Uma mudança gradual, porém significativa, na forma como América Latina e África se enxergam. Nesse sentido, o sucesso dessa aproximação dependerá da capacidade de transformar intenção em políticas de Estado. É uma tarefa menos visível, mais lenta e institucional e, justamente por isso, muito mais difícil.
Referências
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Comunicado Conjunto dos Copresidentes do Primeiro Fórum de Alto Nível CELAC-África. Governo Federal. Disponível em: <https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/comunicado-conjunto-dos-copresidentes-do-primeiro-forum-de-alto-nivel-celac-africa>.
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Declaração de Bogotá - X Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC). Governo Federal. Disponível em: <https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/declaracao-de-bogota-x-cupula-dos-chefes-de-estado-e-de-governo-da-comunidade-dos-estados-da-america-latina-e-do-caribe-celac>.





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