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A corrida pela IA e o novo paradoxo da Segurança Internacional

Nota: As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição deste site.


Esta análise expande a tese de Sullivan e Feldman para uma perspectiva global, examinando como a Inteligência Artificial reconfigura o equilíbrio de poder, a soberania das nações e a estabilidade do sistema internacional.


Foto: Meer
Foto: Meer

A história da geopolítica é marcada pela disputa por recursos tangíveis como terras, rotas comerciais e fontes de energia. No entanto, o século XXI introduz uma variável que altera essa lógica, a Inteligência Artificial (IA). O texto de Sullivan e Feldman sugere que a IA não é apenas um avanço setorial, mas uma força estruturante que determinará a hierarquia global. No cenário internacional, a disputa foca numa questão de sobrevivência nacional e autonomia estratégica, no qual o controle sobre os dados define o peso de cada Estado no tabuleiro mundial.


A reconfiguração das forças


A geopolítica da IA pode ser analisada através de três dimensões críticas que afetam todos os atores globais, para além do eixo Washington-Pequim:


1. A Soberania das Camadas Técnicas


O poder mundial agora está distribuído em uma "pilha" hierárquica.

  • Na base, está o hardware e a energia. Países que controlam a fabricação de semicondutores avançados ou que possuem matrizes energéticas capazes de sustentar data centers massivos tornam-se Estados-âncora.

  • Na camada intermediária, o software e os modelos, trava-se a disputa entre o modelo proprietário e o código aberto. O primeiro funciona como um 'cercamento' da inteligência, onde potências e corporações mantêm o controle via caixas-pretas e APIs, garantindo segurança contra a proliferação de riscos, mas criando uma dependência estrutural de 'vassalagem digital' para quem os consome. Já o código aberto surge como uma ferramenta de soberania e democratização, permitindo que nações busquem autonomia tecnológica e adaptem a IA aos seus contextos locais; contudo, ele elimina os 'filtros' de segurança, permitindo que inovações de ponta sejam rapidamente replicadas ou mal-utilizadas por rivais e atores não estatais, acelerando a erosão das vantagens competitivas de quem as criou."

  • Por fim, a camada de dados gera um novo tipo de extrativismo: nações populosas fornecem a matéria-prima, mas o valor agregado é capturado pelas potências que detêm a capacidade de processamento.


2. Oito mundos


A matriz de "Oito Mundos" proposta pelos autores revela uma nova estratificação global, de maneira resumida:

  • As potências: aqueles que buscam a superinteligência e podem criar uma "singularidade" de poder que impossibilita o alcance pelos rivais. Exemplo: Estados Unidos e China.

  • Os adotantes: Estados que, embora não criem os modelos de base, integram a IA profundamente em suas indústrias e sistemas militares, ganhando relevância pela eficiência. Exemplo: Coreia do Sul e Israel.

  • O Sul Global e o risco da dependência: Para muitos países, o perigo é a colonização digital. Se a IA for difícil de copiar, o mundo poderá ver um fosso intransponível entre nações que pensam com seus próprios algoritmos e aquelas que dependem de infraestruturas estrangeiras para governar e produzir. Exemplo: Brasil e Índia.


3. O Dilema da Segurança


Diferente das armas nucleares, a inteligência artificial não depende de insumos físicos raros nem de infraestruturas facilmente rastreáveis, o que torna sua proliferação potencialmente rápida, difusa e difícil de controlar. Seu caráter dual, simultaneamente civil e militar, e sua natureza essencialmente invisível ampliam os riscos à estabilidade internacional. Em um cenário de “proliferação fácil”, capacidades antes restritas a grandes potências passam a estar ao alcance de pequenos Estados e até de atores não estatais, sobretudo em áreas como ciberguerra, desinformação em larga escala, sistemas autônomos e aplicações sensíveis em biosegurança. Isso altera profundamente a distribuição de poder no sistema internacional, favorecendo estratégias assimétricas e reduzindo a vantagem estrutural associada ao poder industrial ou militar tradicional.


Além disso, a velocidade dos sistemas baseados em IA comprime o tempo de decisão política e militar, incentivando a automação de respostas estratégicas e aumentando o risco de escaladas acidentais, sem intenção política clara. Diferentemente da dissuasão nuclear, baseada em atribuição inequívoca, custos imediatos e linhas vermelhas relativamente estáveis, a IA opera em um ambiente de opacidade, efeitos graduais e responsabilidade difusa, o que enfraquece os mecanismos clássicos de contenção. Soma-se a isso o fato de que muitos dos atores centrais no desenvolvimento dessas tecnologias são empresas e laboratórios privados, o que fragmenta a governança, dilui a autoridade estatal e dificulta a construção de regimes internacionais eficazes.


Nesse contexto, ao mesmo tempo em que a cooperação internacional é necessária para mitigar riscos sistêmicos e existenciais, os incentivos estratégicos empurram os Estados para uma corrida tecnológica contínua, motivada pelo medo de ficar para trás. O resultado tende a ser um equilíbrio instável e subótimo, no qual todos reconhecem os riscos, mas poucos estão dispostos a desacelerar. Assim, a IA não inaugura apenas uma nova dimensão de poder, mas um padrão de instabilidade crônica, no qual a governança global corre atrás de uma tecnologia que avança mais rápido do que a capacidade política de regulá-la.


Conclusão


Em suma, se a IA atingir o nível de superinteligência, o mundo pode caminhar para uma unipolaridade técnica sem precedentes. Se ela se tornar uma tecnologia de utilidade comum e fácil difusão, a vantagem pertencerá a quem tiver a melhor capacidade de execução e integração social. O desafio para a comunidade internacional será evitar que a corrida pela fronteira tecnológica resulte em uma fragmentação total do sistema global, onde a inteligência se torna a arma definitiva de exclusão e controle.


Referências



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